A Bio8 é destaque na capa da Revista do CREA-RS de março/abril de 2018

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Revolução do Lixo

Tecnologia que pode transformar um problema em solução, organizando a forma que o país lida com o gerenciamento de resíduos

Por Jô Santucci, Jornalista • Colaboração Maira Miguel, estagiária de Jornalismo - CREA-RS

Como transformar o lixo de uma cidade 

Você já parou para pensar na quantidade de lixo que produz em um dia, uma semana ou um mês? Muita, não é mesmo?

Em eventos como os dias de Carnaval, por exemplo, esse problema fica muito mais evidente, quando uma grande quantidade de lixo fica exposta em ruas e calçadas. Comprova ainda a ausência da consciência socioambiental, quando esquecemos, em qualquer lugar da natureza, os resíduos gerados em nossas atividades.

Estudos da Organização das Nações Unidas e do Banco Mundial apontam que, se o atual ritmo for mantido, em 10 anos, o mundo irá gerar 2,2 bilhões de toneladas de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) por ano. Até 2050, teremos 9 bilhões de habitantes e 4 bilhões de toneladas de lixo urbano.

A maior parte dos RSU produzidos no mundo, cerca de 800 milhões de toneladas/ano, é descartada em aterros. O site do Senado em Discussão aponta uma estimativa do Conselho de Pesquisa em Tecnologia de Geração de Energia a partir de Resíduos dos Estados Unidos, apontando que 1 metro quadrado de terreno é desperdiçado, para sempre, para cada 10 toneladas de lixo aterrado.

Em seu Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2016, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) apresentou, em agosto de 2017, informações mais atualizadas e abrangentes sobre a gestão de resíduos no Brasil, como geração, coleta e destinação do lixo urbano, de construção e demolição e de serviços de saúde; coleta seletiva e iniciativas de reciclagem; e recursos aplicados no segmento.

De acordo com a publicação, a geração de resíduos urbanos no Brasil em 2016 foi de 78,3 milhões de toneladas. O brasileiro produziu, em 2016, 1.040 kg de lixo por dia, queda de 2,9% quando comparado ao ano anterior.

Um dos maiores desafios atuais dos municípios brasileiros é a gestão adequada dos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), mesmo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, criada pela Lei Federal 12.305/10 e que trouxe muitos avanços.

Projeto inovador de reciclagem

Com o acompanhamento e a certificação de parceiros como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Instituto de Pesquisas Tecnológica de São Paulo (IPT-SP), o Laboratório Senai, a Bio8, uma Startup Cooperativa situada em São Leopoldo, vêm desenvolvendo soluções para a gestão de resíduos sólidos da produção.

Um dos responsáveis pela orientação técnica da cooperativa, o Engenheiro Ambiental e pesquisador na área de resíduos Heitor Campana, explica que o processo desenvolvido pela Bio8 apresenta um modelo único no Brasil, pois a gestão proposta permite o desenvolvimento de pesquisas e inovação de processos que possibilitam uma importante abertura no mercado de insumos e produtos de diferentes tipos.

“É necessário propor soluções de forma a agregar valor, reaproveitar e reutilizar os insumos e resíduos da produção, para ir ao encontro de práticas sustentáveis, éticas e socioambientalmente responsáveis. Aterrar resíduos não gera receita, benefícios socioambientais nem ganho de imagem, significando custos para as empresas", defende.

Desenvolvedor de equipamentos de reciclagem há 28 anos, Mauro Veiga, um dos diretores da cooperativa, também ressalta a importância de encontrar soluções para a diminuição de aterros. “O que podemos fazer com os resíduos que não estão na cadeia de reciclagem?”, questiona.

Sua experiência em máquinas para diferentes indústrias, como alimentos, calçados e embalagens, o levou a desenvolver uma tecnologia que incorpora e transforma uma grande diversidade de resíduo sólido, mesmo os considerados “não recicláveis”, em cerca de 20 produtos.

Para ele, essa máquina patenteada pode se configurar como uma ferramenta de solução socioambiental e financeiramente viável para o adequado gerenciamento de resíduos por empresas e municípios. “A Alawik é um maquinário simples e fácil de operar, consistindo em uma misturadora que processa diferentes tipos de polímero, como PE, PS, PP, ABS e PVC, e resíduos sólidos – papel, papelão, serragem em geral, pó de MDF, pó de borracha de pneu, EVA, isopor, espuma e poliuretano –, transformando-os em uma matéria-prima reciclada, que moldada em uma prensa hidráulica possibilita a manufatura de diferentes tipos de peças para comercialização ou utilização no próprio município, como tijolos, telhas, meio-fio para loteamentos, placas de trânsito e sinalização, caixas, bancos, comedouros para animais, caixas de cimento para construção civil, placas divisórias, potes.

Segundo Mauro, o diferencial é que, diferentemente do que existe no mercado, é um processo de reciclagem no qual o misturador não opera pela separação, mas com a aglutinação. “Se for utilizado um tipo de polímero da mesma família, o processo será facilitado. Mas os ensaios mostram ótimos resultados com qualquer um dos polímeros”, detalha.

Além disso, destaca Mauro, o sistema de prensagem dispensa o uso de injetoras e mão de obra qualificada, reduzindo custos e simplificando a confecção de peças. “Estamos propondo uma revolução para o tema de resíduos, com o desenvolvimento de uma ferramenta que pode solucionar o atendimento da Política de Resíduos Sólidos das empresas e dos municípios nos próprios locais, acarretando ganhos econômicos e socioambientais”, destaca.

São realizados testes de resíduos sólidos, elaborando-se uma análise industrial de incorporação de resíduos sólidos diversos em massa polimérica termoplástica. “Desta forma, é possível atender a diversas demandas das empresas”, propõe.

Trabalho em rede ambiental

No caso de uma fábrica de móveis, que gera resíduos originários da madeira, do MDF, seria necessário 50% de polímero para aglutinar com o pó resultante a fim de transformar em um produto.

De acordo com o Eng. Heitor Campana, nessas situações, a rede vinculada à cooperativa pode ajudar com o fornecimento deste material. “São recicladoras, geradores de resíduo, consumidores de produtos, cooperativas”, diz.

Também Engenheiro Ambiental, Nikolas Winck afirma que a máquina é o ponto de partida para outras possibilidades a empresas quanto a resíduos.

Ganho logístico

Outro diferencial é que a tecnologia está próxima ao resíduo da empresa. “Recebemos uma amostra da matéria- prima e elaboramos um Laudo Técnico de Caracterização e Coesão, apresentando uma caracterização da mistura dos resíduos de interesse em massa polimérica termoplástica, nas proporções de resíduos/massa de 70%/30%, 50%/50%, 40%/60%”, explica o Eng. Heitor.

Eles citam ainda como um dos desafios para as empresas a questão do transporte do resíduo até os aterros. “Agora, imagine que haverá uma máquina próxima da empresa, portanto perto do resíduo.”

O Eng. Heitor ressalta que o investimento é em caminhos econômico e socioambiental sustentáveis. “Trabalhamos com a fatia do rejeito, com o que é considerado custo e gera impacto
no meio ambiente”, aponta.

Destaca ainda a importância da Engenharia para a elaboração dos laudos, da estrutura técnica da peça para a obtenção do licenciamento, com controle ambiental e de qualquer tipo de impacto. “Utilizamos nossa rede, com parceiros como UFRGS, Senai, entre outros, para realizar a análise técnica das matérias-primas”, conta.

O Engenheiro cita outro trabalho com a Engenheira Química Dra. Ruth Marlene Campomanes Santana, professora do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Minas, Metalúrgica e de materiais da UFRGS (PPGE3M), do Laboratório de Materiais Poliméricos. “A professora Ruth é expert na área dos polímeros. Tive a oportunidade de ser seu aluno e aprender. Estamos trabalhando no desenvolvimento de uma linha de pesquisa para a incorporação de resíduos poliméricos sem valor comercial, que iriam acabar no meio ambiente, na produção de asfalto, como
matéria-prima.”, destaca.

De acordo com Mauro, essa rede pode fazer a diferença para encontrar uma solução à questão dos resíduos. “A professora Ruth é especialista em polímeros e ficou impressionada com o processo da máquina e com as possibilidades desta mistura”, adianta.

Ressalta igualmente o baixo consumo de energia da máquina. “O derretimento dos polímeros é feito apenas pelo atrito, sem energia elétrica como resistência. É gerado calor, fazendo com que o material se funda naturalmente, gerando uma economia de cerca de 50% a menos do que se fosse fazer um sistema convencional que não mistura tudo”, detalha.

Para ele, o mais importante é promover um tratamento ecologicamente correto ao resíduo. “Minuto a minuto, todos os dias, algumas toneladas de lixo estão sendo dispostas de forma menos adequada, gerando um passivo, causando impacto ambiental, diminuindo as perspectivas ao aproveitamento desse material e reduzindo nossos recursos para o futuro. Não é sustentável. Propomos uma mudança desse padrão.”

Desidratação do lixo

Considerando este conceito, a Bio8 propõe a instalação de usinas para que seja feita a desidratação dos resíduos antes de eles serem enterrados ou processados. “Pode se tornar uma fonte de energia”, avalia.

O Engenheiro Heitor complementa: “Estamos falando de biogás. Não é nem a questão de redução de custos, mas a possibilidade de geração de receita direta e indiretamente para municípios e empreendedores”.

Segundo Mauro, apenas 5% do lixo é retirado da esteira de triagem. “As pessoas falam que tudo é reciclável. Mas a realidade não é esta. São aproveitados a latinha, o papelão e algum plástico mais maleável. Isso significa que 95% deste lixo vira rejeito num aterro. E ainda metade destes 95% é composto por água e matéria orgânica. Logo, nós estamos pagando para enterrar água”, lamenta.

Considerando esse sistema, a Bio8 criou também um método para desidratar o lixo. “Para tirar a água do lixo com calor, é necessária muita energia, o que desestimula as empresas e os municípios a adotar este sistema. A média nacional é 1 quilo por habitante. Em uma cidade como Novo Hamburgo, por exemplo, com 260 mil habitantes, cerca de 200 toneladas de lixo todo dia vai para a estação. De 200 toneladas, 100 são de orgânico e água. Então, quanto de energia eu teria que colocar para tirar 100 toneladas todos os dias? Desenvolvemos, por isso, uma desidratação mecânica”, explica.

Segundo ele, é como se “torcesse” o lixo, extraindo a água por meio de uma força mecânica. “Sobra um lodo, que se transforma em um composto na máquina, para virar biogás que gera energia elétrica para a própria usina, que se torna autossustentável. Com esses 95% que sobram, tirando latinha, PET, papelão, faremos esse processo virar produto e energia do lodo. É uma tecnologia brasileira, gaúcha, que vai ser muito falada, porque é economicamente viável”, revela, destacando ainda que “não tem superfaturamento, nem política no meio”.

Salienta que, em um mundo ideal, se todo resíduo fosse separado e limpo, seria possível aproveitar praticamente 100%. “No mundo real, não é assim, mas podemos chegar perto desse número com a máquina que desenvolvemos, porque ela aceita tudo, e temos uma solução diferenciada para os resíduos”, avalia.

Mauro explica que, na Europa, todo o lixo é separado, diferentemente do que ocorre no Brasil. “Em alguns lugares existe a coleta seletiva, mas na verdade não funciona.” Para ele, pode ser uma grande solução aos municípios que estão sem recursos, mas que precisam atender à Política de Resíduos Sólidos, dando o tratamento adequado para o lixo. “É uma solução para acabar com os aterros, eliminando o custo da logística. O maior impacto será transformar o lixo de uma cidade”, finaliza.

Veja a revista completa: http://www.crea-rs.org.br/site/revista_pageflip/124/magazine-sample/index.htmlpage/1 

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